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Silêncio Pós-Acidente

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Foi rápido. Em segundos o outro carro estava em cima do meu e quando percebi já estava do outro lado da rua.  Vi o motorista chorar, ouvi os freios grudarem os pneus no chão, mas já era tarde. Prendi a respiração, segurei o volante com toda a força, e esperei o mundo parar de girar. Minha música preferida ainda tocava no rádio, mas a felicidade havia sido esmagada pela realidade. Como aquilo tinha acontecido? A culpa era minha, eu sabia, apenas minha e não tive coragem de descer do carro nos segundos seguintes. As pessoas saíam para fora das casas, tentando ajudar, e isso me mergulhava cada vez mais em um poço de vergonha.

Quando finalmente saio do carro e vou falar com o outro motorista, percebo que ele está em prantos. Ele estava indo pegar os filhos na escola…. Meu estomago embrulha e aceito um copo de água de uma senhora bondosa. Aquele homem tinha filhos, tinha uma vida, e minha imprudência quase havia deixado crianças esperando eternamente por um pai.

Sinto raiva de mim mesma. Não ouvi nenhum carro, não vi nenhum carro, e avancei. Ouvi um som de buzina depois, mas não soube dizer de onde vinha. Simplesmente não soube, e para que servem meus ouvidos então? E para que servem todas as regras de trânsito, minha consciência grita. Me arrependo de cada pensamento confiante que nutri. 

Minha mãe me diz por telefone que foi só um susto, mas sei que é mentira. Porque e se tivessem crianças no veículo? E se alguém estivesse morto agora? A culpa ainda seria minha assim como é agora e não me permiti o alívio. Paguei o que tinha que pagar, ouvi o que merecia ouvir e fui embora de taxi. Gostaria de dizer que depois de um tempo isso passou, que me ajudou a ser uma motorista melhor, mas a verdade é que ainda acho que vou bater a cada cruzamento, a cada rua que atravesso, e a cada minuto dentro de um carro.

Quem sabe isso passe depois que a última prestação da funilaria chegar, ou talvez quando eu comprar um carro menor e me sentir no controle de novo. Talvez. Talvez eu aprenda a tentar novamente, talvez seja uma história legal para contar daqui a alguns anos, mas por enquanto…. Por enquanto só consigo ouvir aquela buzina, aqueles pneus, e aquele silêncio pós-acidente.


Postado por Camila Veloso




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