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ago
O Preço da Beleza

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Sorrisos e aplausos se perderam em olhos de horror. Lábios foram cobertos com mãos, suspiros foram dados e, finalmente, depois que o corpo se rendeu ao tiro, ouvi gritos. O palco do Miss Universo acabava de perder sua estrela mais brilhante e nada poderia salvar aquela vida. A plateia grita e se abaixa, temendo outros tiros, enquanto que as outras misses, como pequenas luas em rotação, se reúnem em prantos junto ao corpo de Estela. Tanta beleza, simpatia, vestido e sapatos perfeitos mortos com aquele corpo. Porque ela era apenas um corpo agora.

Naqueles poucos segundos em que o tempo parou, achei que ficariam ali, adorando a estrela caída. Pego minha câmera e me preparo para fotografar a capa de todos os jornais do dia seguinte, mas os acontecimentos seguintes atrapalham meus planos e iluminação. Vejo Miss Brasil se atirar na direção do corpo da miss assassinada e arrancar-lhe a coroa. Uma confusão de gritos e puxões de cabelo se inicia, mas sem os saltos miss Brasil avança com facilidade para os bastidores. Um instante antes de alcançar a porta a brasileira cai no chão empurrada pela mais bela colombiana presente.

A latina tira uma arma da parte interna da coxa e percebo que presencio algo muito maior do que a loucura de mulheres pela coroa da beleza. Aqueles olhos eram assassinos, eram medo e sacrifícios forçados. Afinal, quais eram os jogos políticos envolvidos no mundo da beleza? Naquele instante soube que nem tudo ali eram rosas, vestidos e coroas. Ouço outro tiro e dessa vez me abaixo, sentindo o desespero da multidão aumentar. Não sabia dizer de onde o tiro havia vindo, a brasileira e a colombiana não estavam mais onde as vi dois segundos atrás e, desistindo de ser o repórter do mês para ficar vivo, guardo minha câmera na mochila e sigo abaixado até a porta direcionada para o ‘’Staff’’.

A essa altura do campeonato as pessoas mais importantes presentes já estavam rodeadas de seguranças e vejo homens de preto correndo por todos os bancos falando em seus fones de ouvido. Na sala da imprensa alguns repórteres falam ao telefone enquanto outros gravam os acontecimentos com uma câmera portátil, se aproveitando do desespero das pessoas para ganhar dinheiro. Meu plano era sair dali e conseguir uma entrevista com alguém do lado de fora do prédio, mas todas as portas estavam lacradas por seguranças de dois metros de altura. Claro. Eles desconfiavam da imprensa, sempre desconfiam da imprensa e de alguém infiltrado, mas se fossem espertos saberiam que o tiro que matou a miss veio de cima, da parte mais alta do teatro e quem sabe de fora dele.

Me abaixando e fingindo ir até o banheiro escapo por um dos corredores que leva até as salas em que fizemos as entrevistas na noite passada. Elas estão vazias agora, e sei que em algum lugar por aqui tem uma porta que me leva até o setor dos funcionários, também vazio, e este me levará a uma saída. O silêncio me dá confiança e corro. Passo pelas salas de entrevistas, chego até os corredores e salas menores de limpeza e levo um susto quando meu celular vibra. É meu colega, Marcos. Penso em atender a chamada, mas noto o som de passos. Me abaixo junto as vassouras e produtos de limpeza enquanto desligo o celular e espero. Os passos veem, insistentes, e percebo que algo é arrastado no chão. Talvez um funcionário desavisado que traz sacos de lixo do banheiro, alguém que não ouviu os tiros e apenas continua seu trabalho. Me conforto com essa possibilidade e quase penso em levantar quando a vejo. Miss Brasil é arrastada como um animal.

– Onde ela está? Onde está a maldita coroa? – Pergunta o carrasco de terno. A pobre mulher geme de dor e toca o lado ensanguentado do rosto. Ela ri com o que lhe resta de forças e diz que não com a cabeça. Ele a balança, espanca e aponta uma arma contra a cabeça dela. Sinto vontade de vomitar, de defende-la daquele monstro, mas sei que isso me custaria a vida. Fecho os olhos e pressiono os ouvidos, só relaxando com o susto do tiro. Ela morre, mas deixa a dúvida: Porque ele queria a coroa, e porque a miss deu sua vida pela joia?


Postado por Camila Veloso




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