26

ago
Silêncio Pós-Acidente

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Foi rápido. Em segundos o outro carro estava em cima do meu e quando percebi já estava do outro lado da rua.  Vi o motorista chorar, ouvi os freios grudarem os pneus no chão, mas já era tarde. Prendi a respiração, segurei o volante com toda a força, e esperei o mundo parar de girar. Minha música preferida ainda tocava no rádio, mas a felicidade havia sido esmagada pela realidade. Como aquilo tinha acontecido? A culpa era minha, eu sabia, apenas minha e não tive coragem de descer do carro nos segundos seguintes. As pessoas saíam para fora das casas, tentando ajudar, e isso me mergulhava cada vez mais em um poço de vergonha.

Quando finalmente saio do carro e vou falar com o outro motorista, percebo que ele está em prantos. Ele estava indo pegar os filhos na escola…. Meu estomago embrulha e aceito um copo de água de uma senhora bondosa. Aquele homem tinha filhos, tinha uma vida, e minha imprudência quase havia deixado crianças esperando eternamente por um pai.

Sinto raiva de mim mesma. Não ouvi nenhum carro, não vi nenhum carro, e avancei. Ouvi um som de buzina depois, mas não soube dizer de onde vinha. Simplesmente não soube, e para que servem meus ouvidos então? E para que servem todas as regras de trânsito, minha consciência grita. Me arrependo de cada pensamento confiante que nutri. 

Minha mãe me diz por telefone que foi só um susto, mas sei que é mentira. Porque e se tivessem crianças no veículo? E se alguém estivesse morto agora? A culpa ainda seria minha assim como é agora e não me permiti o alívio. Paguei o que tinha que pagar, ouvi o que merecia ouvir e fui embora de taxi. Gostaria de dizer que depois de um tempo isso passou, que me ajudou a ser uma motorista melhor, mas a verdade é que ainda acho que vou bater a cada cruzamento, a cada rua que atravesso, e a cada minuto dentro de um carro.

Quem sabe isso passe depois que a última prestação da funilaria chegar, ou talvez quando eu comprar um carro menor e me sentir no controle de novo. Talvez. Talvez eu aprenda a tentar novamente, talvez seja uma história legal para contar daqui a alguns anos, mas por enquanto…. Por enquanto só consigo ouvir aquela buzina, aqueles pneus, e aquele silêncio pós-acidente.


Postado por Camila Veloso
19

ago
O Preço da Beleza

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Sorrisos e aplausos se perderam em olhos de horror. Lábios foram cobertos com mãos, suspiros foram dados e, finalmente, depois que o corpo se rendeu ao tiro, ouvi gritos. O palco do Miss Universo acabava de perder sua estrela mais brilhante e nada poderia salvar aquela vida. A plateia grita e se abaixa, temendo outros tiros, enquanto que as outras misses, como pequenas luas em rotação, se reúnem em prantos junto ao corpo de Estela. Tanta beleza, simpatia, vestido e sapatos perfeitos mortos com aquele corpo. Porque ela era apenas um corpo agora.

Naqueles poucos segundos em que o tempo parou, achei que ficariam ali, adorando a estrela caída. Pego minha câmera e me preparo para fotografar a capa de todos os jornais do dia seguinte, mas os acontecimentos seguintes atrapalham meus planos e iluminação. Vejo Miss Brasil se atirar na direção do corpo da miss assassinada e arrancar-lhe a coroa. Uma confusão de gritos e puxões de cabelo se inicia, mas sem os saltos miss Brasil avança com facilidade para os bastidores. Um instante antes de alcançar a porta a brasileira cai no chão empurrada pela mais bela colombiana presente.

A latina tira uma arma da parte interna da coxa e percebo que presencio algo muito maior do que a loucura de mulheres pela coroa da beleza. Aqueles olhos eram assassinos, eram medo e sacrifícios forçados. Afinal, quais eram os jogos políticos envolvidos no mundo da beleza? Naquele instante soube que nem tudo ali eram rosas, vestidos e coroas. Ouço outro tiro e dessa vez me abaixo, sentindo o desespero da multidão aumentar. Não sabia dizer de onde o tiro havia vindo, a brasileira e a colombiana não estavam mais onde as vi dois segundos atrás e, desistindo de ser o repórter do mês para ficar vivo, guardo minha câmera na mochila e sigo abaixado até a porta direcionada para o ‘’Staff’’.

A essa altura do campeonato as pessoas mais importantes presentes já estavam rodeadas de seguranças e vejo homens de preto correndo por todos os bancos falando em seus fones de ouvido. Na sala da imprensa alguns repórteres falam ao telefone enquanto outros gravam os acontecimentos com uma câmera portátil, se aproveitando do desespero das pessoas para ganhar dinheiro. Meu plano era sair dali e conseguir uma entrevista com alguém do lado de fora do prédio, mas todas as portas estavam lacradas por seguranças de dois metros de altura. Claro. Eles desconfiavam da imprensa, sempre desconfiam da imprensa e de alguém infiltrado, mas se fossem espertos saberiam que o tiro que matou a miss veio de cima, da parte mais alta do teatro e quem sabe de fora dele.

Me abaixando e fingindo ir até o banheiro escapo por um dos corredores que leva até as salas em que fizemos as entrevistas na noite passada. Elas estão vazias agora, e sei que em algum lugar por aqui tem uma porta que me leva até o setor dos funcionários, também vazio, e este me levará a uma saída. O silêncio me dá confiança e corro. Passo pelas salas de entrevistas, chego até os corredores e salas menores de limpeza e levo um susto quando meu celular vibra. É meu colega, Marcos. Penso em atender a chamada, mas noto o som de passos. Me abaixo junto as vassouras e produtos de limpeza enquanto desligo o celular e espero. Os passos veem, insistentes, e percebo que algo é arrastado no chão. Talvez um funcionário desavisado que traz sacos de lixo do banheiro, alguém que não ouviu os tiros e apenas continua seu trabalho. Me conforto com essa possibilidade e quase penso em levantar quando a vejo. Miss Brasil é arrastada como um animal.

– Onde ela está? Onde está a maldita coroa? – Pergunta o carrasco de terno. A pobre mulher geme de dor e toca o lado ensanguentado do rosto. Ela ri com o que lhe resta de forças e diz que não com a cabeça. Ele a balança, espanca e aponta uma arma contra a cabeça dela. Sinto vontade de vomitar, de defende-la daquele monstro, mas sei que isso me custaria a vida. Fecho os olhos e pressiono os ouvidos, só relaxando com o susto do tiro. Ela morre, mas deixa a dúvida: Porque ele queria a coroa, e porque a miss deu sua vida pela joia?


Postado por Camila Veloso
06

ago
Promessas

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Acordei cedo, vesti meu melhor e único vestido e comecei a caminhada junto as outras crianças. Nossas idades variavam. Os mais velhos tinham treze ou quatorze anos e os mais novos ainda aprendiam as primeiras palavras. Em uma fila indiana desorganizada nos colocaram em frente a parede externa da igreja. Os adultos chegavam aos poucos, mas logo uma plateia de clientes havia se formado. Seria eu escolhida? E porque alguém me escolheria se minha própria mãe me abandonou? Me repreendi por esse pensamento na mesma hora. Eu sabia das dificuldades de minha mãe e que ela só queria uma vida melhor para mim. Sabia que ela me amava, afinal, ela esperou nove meses por mim e me deixou estar pronta para o mundo. E que mundo…

Aliás, deveria eu sorrir, ou uma careta que mostrasse minha inteligência seria mais eficaz? Eu só queria ser escolhida, ser boa o suficiente. A maioria das crianças experimentam essa sensação quando são escolhidas para um jogo de queimada, mas para mim era diferente. Para mim, ser ou não ser escolhida não era uma valorização de minhas habilidades, mas o fato de ter ou não ter uma casa, uma infância, uma família.

Meu coração quase explodiu quando chamaram meu nome. Alguém realmente me quis, isso não era maravilhoso? Em parte. Naquele dia vi meus irmãos serem escolhidos também e agradeci por já ter me despedido deles antes de ir para a cerimônia. Gravei cada detalhe de seus rostos em meu coração e orei para que Deus não me deixasse esquecê-los. Minha esperança era revê-los no céu, onde eu poderia viver com minha mãe, com meu pai e irmãos sem que a vida fosse difícil demais para estarmos juntos. Alimentei essa certeza por dois anos antes de vê-la novamente.

Minha mãe. Quando me deixou ela disse que voltaria, que me resgataria, e reapareceu justamente quando eu estava prestes a deixar de crer. Depois de tanto tempo ouvindo as palavras rudes da mulher que me escolheu esqueci da promessa de mamãe. Mas ela não esqueceu. Ela voltou, me tirou de onde eu estava e procurou meus irmãos. Nossa vida não foi perfeita, só será no céu, mas o que quero que saiba a partir dessa história é o seguinte: Assim como minha mãe não esqueceu sua promessa para mim, Deus não esquece as promessas que nos fez. Ele prometeu estar conosco (Mt 28:20), ele prometeu vida (Jo 10:10), e prometeu voltar (Jo 14:3).

Hoje, apesar de todas as dificuldades e toda a dor, lembre-se: Ele vai voltar para te buscar, e quer te resgatar ainda hoje. Então acredite, e não se esqueça.

‘’ Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo.’’ – João 16:33.


Postado por Camila Veloso
02

ago
Resenha – Mariah Mundi: A caixa de midas
Em: Vlog

OHBABY

Sim, eu também tenho um canal no Youtube, querido amiguinho novato por aqui. =) Preciso voltar a postar meus vídeos aqui também e voltar a postar de modo geral, não é? É!

Nesse vídeo falo um pouco sobre minhas impressões sobre o livro Mariah Mundi: A caixa de midas. Já ouviu falar do livro e ficou interessado? Então aperte o play. Aperte o play de qualquer jeito aliás. =)

Agora me conta, o que você achou do livro? E não esquece de se inscrever no canal para mais vídeos e resenhas. =)


Postado por Camila Veloso